segunda-feira, 20 de julho de 2009

Razão e Sensibilidade (Sense and Sensibility) - Jane Austen

Existe uma gota de sangue em cada pagina desse livro. Gotas minhas, óbvio, que suei sangue para conseguir terminar de ler-lo.

Colocando o drama de lado, esse chato dinossauro victoriano exibe por meio de seus principais personagens, Elinor e Mariane, um tema interessante, digno de ser comentado: As diferenças entre as pessoas de razão e as ultra-sensíveis. Essas duas raças de seres humanos coabitam na terra desde a criação, muitas vezes em desarmonia.

Os guiados pela razão, os racionais, são seres que vivem na mais tranquila serenidade. Assim como Elinor, são sempre serios, calmos, e calculistas. As vezes são chamados de frios, mas isso não é verdade; não são frios, apenas sabem lidar com suas emoções e sofrimentos com força. Os encaram quietos e sozinhos, assim como Elinor e sabem partir para a luta quando é necessário, mas sempre de acordo com um plano de batalha pré-determinado.

Ser racional quer dizer uma coisa: estabilidade. A vida é calma dentro da fortaleza que os racionas constroem ao redor de si. Algumas pessoas dizem que a vida deles é privada grande emoções, mas isso não é necessariamente verdade. Claro que não vivem as suas emoções de maneira fulminante como os sensíveis, mas as vivem de maneira moderada, um minuto por vez, sem grande expectativas. Pode ser que as vezes perdem um ou outro acontecimento memorável, mas pensam que a estabilidade em qual vivem, sem grande oscilações, compensa tudo isso.

Ah! Agora os sensíveis. O Raça! Tomamos Mariane como exemplo. Jane Austen a caracteriza como uma romântica mimada. Para os ultra-sensíveis que lêem o livro, deve ser horrivel ter o seu comportamento "questionável" (eu queria mesmo era escrever estúpido, mas me sinto mal) jogado na cara de forma explicita, como se as folhas do livro fossem um espelho. Realmente dói ser exposto assim como fraco e muitas vezes sem a habilidade de agir.

Ser sensível é viver assim, com oscilações (ondas do mar seria uma metáfora sensível adequada). Definitivamente não gozam de qualquer forma de estabilidade. Vivem de forma explosiva, oito ou oitenta, sem qualquer tipo de meio termo ou acordo. Alias, intenso e explosivo também servem para definir o jeito que lidam com seus conflitos e sofrimentos. Sofrem abertamente e choram alto.

Todo sensivel é um sonhador. Vivem em um mundo imaginário, fruto de seus sonhos. São sonhadores natos e sonham com tudo.

Em seu favor, pelo menos podem dizer que vivem suas emoções de maneira diferente, com maior magnitude, e que realmente passaram pela vida vivendo, vivendo 100%. Como é comum dizer, onde uma pessoa racional vê uma maçã, o sensível enxerga o papel rosa-chá que a envolve, e com isso faz uma musica e uma poesia. O mundo literário, musical, e plástico, ou seja, o mundo artístico em geral deve muito a essas almas.

Os ultra-sensíveis juram de pés juntos que esse modo diferente de viver e os poucos momentos de extrema felicidade que passam devido a sua hiper sensibilidade compensam os meses de sofrimento que podem vir a seguir.

Todo ser humano nasce sensível, e depois por consequencia se torna racional, e depois oscila entre os dois (vide diagrama).As idas e voltas são turbulentas. Temos que aprender a lidar bem com elas. Algumas mudanças são para melhor e outras para o pior, depende mesmo é do tipo da pessoa. Mas a vida é assim, ela da voltas.

sábado, 18 de julho de 2009

Olhai os Lírios do Campo - Erico Verissimo

"Olhai os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? "
MATEUS 6:28-30

A obra toca em um assunto muito fragil e sensivel e por consequencia nos faz rever conceitos que outrora davamos como certo desde sempre. Portanto, é perigoso. O assunto é cliche, claro; mais a abordagem é feita de maneira diferente, explicita, afim de podermos analisar o psicologico dos personagens e estudar o efeito do eterno conflito: a relacao entre o trabalho e o social.

Escolher uma profissão e estilo de vida por gosto ou buscar dinheiro? Muito poucos optam pelo caminho virtuoso. Nós seres humanos nao somos muito altruistas com nós mesmos.

Quando crianças queremos ser apenas algumas coisas: médicos, cientistas, bombeiros, policiais, astronautas, e jogadores de futebol. Não existem crianças que quer ser juizes, advogados, engenheiros, administradores, e economistas. Claro que muitas coisas acontecem nesse periodo de transiçao entre a infância e a idade adulta, e muitos fatores sociais levam jovens a mudarem radicalmente de planos; mas na há como negar que perdemos um pouco de nossa inocência ao passarmos por essa fase e começamos a conhecer o que é ganância e amibição.

O periodo em que passei dentro de cursinhos pré-vestibulares permitiu que confirmasse isso. Um dos dialogos mais comuns entre alunos é sempre esse:

- "E ae, o que vai prestar? "
- "Nao sei, só sei que vai ser alguma coisa para ganhar muito dinheiro."

Não existe nada errado em querer ganhar dinheiro, vamos deixar isso claro antes de continuar. O mundo precisa sim de pessoas determinas, ativas, e com grandes projetos, e dinheiro torna a vida mais facil. Porém, o que nao pode acontecer, é o que mais acontece: a desumanização da profissão. Esquecemos que toda profissão tem um lado humano e focamos apena no aspecto monetário.

A leitura do livro vai te fazer balançar, e isso é bom. Ele mostra porque existem tantas pessoas FRUSTRADAS nesse mundo e nos ensina que a vida foi feita para ser prazerosa e vivida de maneira LEVE. Para voce que é vestibulando, pode ser uma leitura salvadora, ou um desastre que vai te embaralhar ainda mais.




A primeira carta de Olivia

Escrevi a pouco minha opinião sobre como Olhai os Lírios do Campo nos ajuda a entender melhor a relação entre o trabalho e o social. Mas sinto que infelizmente, não consegui fazer justiça ao livro e sua incrível qualidade. Então, transcrevo aqui a primeira carta de Olivia, personagem principal do livro, que explica de maneira melhor que eu, aquilo que quis dizer.

É longa, mas vale a pena.


Antes que me esqueça: na gaveta da cômoda há um maço de cartas que te escrevi de Nova Itália expressamente para “não te mandar”. Agora pode lê-las todas.

"Hoje tens tudo quanto sonhava: posição social, dinheiro, conforto, mas no fundo te sentes ainda bem como aquele Eugênio indeciso e infeliz, meio desarvorado e amargo que subia as escadas do edifício da faculdade, envergonhado de sua roupa surrada. Continuou em ti a sensação de inferioridade (perdoa que te fale assim), o vazio interior, a falta de objetivos maiores. Começas agora a pensar no passado com uma pontinha de saudade, com um pouquinho de remorso. Tens tido crises de consciência, não é mesmo? Pois ainda passarás horas mais amargas e eu chego até a amar o teu sofrimento, porque dele, estou certa, há de nascer o novo Eugênio.
Quando eu estava ainda em Nova Itália. Li muitas vezes o teu nome ligado ao do teu sogro em grandes negócios, sindicatos, monopólios e não sei mais quê. Estive pensando muito na fúria cega com que os homens se atiram à caça do dinheiro. É essa a causa principal dos dramas, das injustiças, da incompreensão da nossa época. Eles esquecem o que têm de mais humano e sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor: as relações de criatura para criatura. De que serve construir arranha-céus se não há mais almas humanas para morar neles?

Quero que abra os olhos, Eugênio, que acorde enquanto é tempo. Peço-te que pegues a minha Bíblia que está na estante de livros, perto do rádio, leias apenas o Sermão da Montanha. Não te será difícil achar, pois a página está marcada com uma tira de papel. Os homens deviam ler e meditar esse trecho, principalmente no ponto em que Jesus nos fala dos lírios do campo que não trabalham nem fiam, e no entanto nem Salomão em toda sua glória jamais se vestiu como um deles.

Está claro que não devemos tomar as parábolas de Cristo ao pé da letra e ficar deitados à espera de que tudo nos caia do céu. É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Precisamos, entretanto, dar um sentido humano às nossas construções. E, quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu.

Não penses que estou fazendo o elogio do puro espírito contemplativo e da renúncia, ou que ache que o povo devia viver narcotizado pela esperança da felicidade na “outra vida”. Há na terra um grande trabalho a realizar. É tarefa para seres fortes, para corações corajosos. Não podemos cruzar os braços enquanto os aproveitadores sem escrúpulos engendram os monopólios ambiciosos, as guerras e as intrigas cruéis. Temos de fazer-lhes frente. É indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do ódio e da violência e sim com as do amor e da persuasão. Considera a vida de Jesus. Ele foi antes de tudo um homem de ação e não um puro contemplativo.

Quando falo em conquista, quero dizer a conquista duma situação decente para todas as criaturas humanas, a conquista da paz digna, através do espírito de cooperação.

E quando falo em aceitar a vida não me refiro à aceitação resignada e passiva de todas as desigualdades, malvadezas, absurdos e misérias do mundo. Refiro-me, sim, à aceitação da luta necessária, do sofrimento que essa luta nos trará, das horas amargas a que ela forçosamente nos há de levar.

Precisamos, portanto, de criaturas de boa vontade. E de homens fortes como esse teu amigo Filipe Lobo, que seria um campeão de nossa causa se orientasse a sua ambição, o seu ímpeto construtor e a sua coragem num sentido social e não apenas egoisticamente pessoal.
"

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Porque muitos brasileiros não gostam de ler?

Na minha opinião , o nosso sistema de ensino faltoso e a falta de um amplo mercado editorial infanto-juvenil contribuem para que o brasileiro desde jovem desenvolva uma grande aversão por esse habito e consequentemente como adulto, não consiga sentir prazer na leitura.

O jovem precisa ter livros adequados para a sua faixa etária. Saímos da extrema infância, onde no maternal a professora nos lê Sitio do Pica Pau Amarelo e Turma do Cocoricó e chegamos na oitava série como a obrigação de ler e entender Machado de Assis e José de Alencar, assim, sem qualquer tipo de meio termo.

Ler é como andar, para conseguir desempenhar bem ta ação, é preciso primeiro engatinhar. Meu irmão recebeu do governo Olhai os Lírios do Campo na oitava série, e foi assim que conheci o livro. O fato é que 90% das crianças com essa idade não conseguem absorver e gostar de livros assim pois não tem uma bagagem literária pesada o bastante para conseguir aproveitar-lo. Então a leitura se torna chata, tediosa, e obrigatória.

Não adianta socar os clássicos como Machado, Alencar, Lispector em jovens de 15 anos. A leitura acaba se tornando um fardo e passa ser vista apenas como um meio de alimentar o intelectual de uma pessoa ao invés de ser vista também como algo gostoso, prazeroso, e um bom passatempo.

Precisamos de mais livros como Harry Potter, Crepúsculo, A Menina que Roubava Livro, e mais coleções como a Vagalume e Goosebumps para que a exposição da literatura aos jovens seja feita de forma mais progressiva e prazerosa, tornando assim possível que eles um dia se tornem adultos leitores e que venham apreciar livros de grande valor literário. Mais isso é impossível sem um mercado editorial infanto-juvenil sólido bem sucedido e preços acessíveis.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Son, I am Dissapoint

Olhai os Lírios do campo foi um dos primeiros grande sucessos do mercado editorial brasileiro. O romance obteve tão grande êxito de vendas em livrarias, que se esgotaram dele varias edições em poucos meses, algo pouco comum para a época, ainda mais tratando-se de um autor nacional e até então pouco conhecido.

Mais esse é um acontecimento isolado no Brasil. Infelizmente não temos muitos outros exemplos para citar. Livros aqui não são itens de primeira necessidade para a população. Esse lugar é ocupado pelas telenovelas. Todo mundo comenta sobre o ultimo capitulo de Caminho das Índias, mas nunca de livros, como em muitos outros países.

MAAASSSSS, quando isso acontece, quando um livro estoura, atinge altos níveis de popularidade, e a população fica doida e corre e lota todas as livrarias, uma semelhança pode ser notada. Se eu colocar aqui sucessos de vendas recentes no Brasil, os blockbusters literários, será que consegues notar-la? Vamos la:

  • Harry Potter
  • Código da Vinci
  • O Segredo
  • O Caçador de Pipas
  • A Menina que Roubava Livros
  • Crepúsculo
Sim, nenhum autor nacional. De fato, o ultimo livro nacional que consigo lembrar que teve grande aclamação publica foi O Doce Veneno do Escorpião de Bruna Surfistinha. E isso foi em 2005!

Muitas são as razões para isso. No Brasil existem mais editoras do que livrarias e apenas 10% das cidades brasileiras as possuem. Alem disso, no Brasil existem entre 1800 e 2000 livrarias, sendo que respeitando os índices sugeridos pela UNESCO, esse numero devia ser 1 para cada 10000 habitantes, ou seja, o Brasil deveria ter no mínimo 19,000 livrarias que somos aproximadamente 190 milhões de brasileiros. E com certeza, fatores internos burocráticos devem contribuir para essa triste realidade. Isso contribui para que a leitura nao seja encorajada no pais, e consequentemente, desestimula a produçao literária nacional.

Algo tem que ser feito !!!

terça-feira, 14 de julho de 2009

Hão de Chorar por Ela os Cinamomos..

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — "Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria.. . "
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — "Por que não vieram juntos?"

Alphonsus de Guimaraens


As vezes, raras vezes, me deparo com poemas como esse q assustam por sua pura e brilhante perfeição em todos os conceitos por qual julgamos poesias. Ritmo perfeito, métrica igualmente boa. Emoção que transborda da caneta do escritor. E significado, muito significado. Uma pérola da poesia brasileira.