sábado, 31 de outubro de 2009

Meus Poemas Preferidos, Por Poetizas

É inqüestionável a importância da mulher para a poesia. Afinal, quantos poemas não foram feitos e dedicados "a mulher amada" ao redor do mundo? Sim, a poesia mundial deve muito a essas inúmeras musas.

As vezes sinto falta da mulher com a caneta, como autora! Devido a fatores sociais, demorou para que o talento feminino fosse reconhecido nesta área assim como em muitas outras.

A alma feminina, que é dotada de muita beleza, inteligencia, e sensibilidade criou trabalhos incríveis que agora estão começando a receber o devido reconhecimento. E o futuro parece promissor.

Abaixo, meus 8 poemas preferidos, por poetizas.

NUMERO 8 - Sonetos Traduzidos do Português #43 - Elizabeth Browning

Para começar, esse famoso poema do livro Sonetos Traduzidos do Português de Elizabeth Browning. Elizabeth, italiana, para manter a sua privacidade e a de seu marido, escolheu fantasiar seu livro de poemas como um livro de tradução de poemas estrangeiros. Seu marido, o também poeta Robert Browning, acreditava que essa obra era a melhor desde as obras de Shakespeare!



Como te amo? Deixa-me contar de quantas maneiras.
Amo-te até ao mais fundo, ao mais amplo
e ao mais alto que a minha alma pode alcançar
buscando, para além do visível dos limites
do Ser e da Graça ideal.


Amo-te até às mais ínfimas necessidades de todos
os dias à luz do sol e à luz das velas.
Amo-te com liberdade, enquanto os homens lutam
pela Justiça;

Amo-te com pureza, enquanto se afastam da lisonja.
Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoas
e com a fé da minha infância.

Amo-te com um amor que me parecia perdido - quando
perdi os meus santos - amo-te com o fôlego, os
sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!
E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte.


NÚMERO 7 - Amar! - Florbela Espanca

Continuando a lista, esse lindo poema da portuguesa Florbela Espanca ( ela fará mais aparições por aqui). Florbela teve uma vida curta, cheia de turbulências e sofrimentos internos, que a autora soube transformar em poesia do mais alto escalão, carregada de sentimento, feminilidade, e erotismo.

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por am
ar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprend
er? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-l
a assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha n
oite uma alvorada,
Que me saiba perder...pra me encontrar...

NÚMERO 6 - Pedaços de Mim - Martha Medeiros

Martha Mederiso é uma jornalista e escritora contemporânea brasileira. Ainda publica muitos dos seus trabalhos.


Eu sou feito de
Sonhos interrompidos
detalhes de
spercebidos
amores mal resolvidos

Sou feito de
Choros sem ter razão
pessoas n
o coração
atos por i
mpulsão

Sinto falta de
Lugares que não conheci
experiências que não vivi
momentos que já esqueci

Eu so
u
Amor e carinho constante
distraída até o bastante
não paro por instante


Tive noites mal dormidas
perdi pessoas muito queridas
cumpri coisas não-prometidas

Muitas vezes eu
Desisti sem mesmo tentar
pensei em fugir,para não enfrentar
sorri para não chorar

Eu sinto pelas
Coisas que não mudei
amizades que n
ão cultivei
aqueles que eu julguei
coisas que eu falei

Tenho saudade
De pessoas que fui conhecendo
lembranças que fui esquecendo
amigos que acabei perdendo
Mas continuo vivend
o e aprendendo.



NÚMERO 5 - Os Versos Que Te Fiz - Florbela Espanca

Mais um da Florbela! Esse é lindo.

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm a dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!



NÚMERO 4 - Separaçao - Anna Akhmátova

Anna foi uma poeta russa que teve a vida marcada pela opressão do regime soviético. Viu seu marido ser executado pelo governo. Sua escrita é marcada pela clareza, precisão, e potencia.



Nem semanas nem meses - anos
levamos nos separando. Eis, finalmente,
o gelo da liberdade verdadeira
e as cinzentas guirlandas na fachada dos templos.

Não mais traições, não mais enganos,
e não me terás mais de ficar ouvindo até o amanhecer,
enquanto flui o riacho das provas
da minha mais perfeita inocência.



NÚMERO 3 - A Esperança é a Coisa Com Penas - Emily Dickinson

Emily Dickinson foi uma poetisa americana, que apesar de muito prolifica, viveu uma vida de grande reclusçao e solidão. Tudo o que sabemos dela foi descoberto através de suas correspondência. Escreveu mais de 1800 poemas.

A esperança é aquela coisa com penas -
Que na alma se empoleira -
E canta uma cantiga sem palavras -
E nunca pára - nunca –

E mais doce - na Tormenta - a ouvimos -
E precisava o vento ser poderoso -
Para afligirir a Avezinha
Que a tantos aqueceu –

Ouvi-a na mais gelada terra -
E no mais estranho mar frio -
Mas nem no Cabo mais Extreme
Uma migalha minha me pediu –

NÚMERO 2 - Você Escutará Trovão - Anna Akhmatova

Mais um de Anna. Esse poema é marcado por sua potência e força. Merece o segundo lugar

Você escutará trovão e lembrará de mim,
e pensar: Ela queria tempestades. O arco
do céu vai estar da cor de sangue
e o seu coração, como antes, esta
em chamas.

Aquele dia em Moscow, tud
o vai se concretizar,
quando pela ultima vez, eu partir,
para as alturas que sempre almejei,
deixando minha sombra com você.



sexta-feira, 30 de outubro de 2009

NÚMERO UM! - Versos de Orgulho - Florbela Espanca

O grande campeão. Não poderia ser outro. Um poema tão forte, tão potente, tão MULHER.

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu Reino fica para além...
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus!
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!

O mundo? O que é o mundo, ó meu Amor?
-- O jardim dos meus versos todo em flor...
A seara dos teus beijos, pão bendito...

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...
-- São os teus braços dentro dos meus braços,
Via láctea fechando o Infinito.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

sábado, 22 de agosto de 2009

domingo, 2 de agosto de 2009


"Até logo, até logo, minha companheira,
Guardo-te no meu peito e te asseguro:
O nosso afastamento passageiro
É sinal de um encontro no futuro.
"
- S. I.


Mi, eu te amo tanto. Sinto tanto a sua falta. As saudades são imensas. É impossível aceitar e entender que você teve que partir tão cedo. Você estava tão bem apenas semanas antes. E agora já fazem seis meses...

Sinto falta da sua voz, do seu sorriso, das suas mãos, do seu cheiro, de pegar no seu nariz, das suas ligações, das suas mensagens, de ter você no colo, de te fazer carinho, de voltar pra casa cheio de cabelo loiro na minha roupa. Sinto falta de VOCÊ!

Aqui de onde moro, eu vejo a sua casa. De onde treino, também consigo ver. As lembranças afogam minha mente. Queria poder correr ate la e gritar no interfone "MICHELLEEEEE QUINTO ANDAR APARTAMENTO DA MILA" como tantas vezes fiz.

Você era uma obra de arte, perfeição total. Quantas vezes não me peguei parado te olhando, te admirando. Sua beleza e sua pessoa não era desse mundo. Tu era ímpar.

A nossa historia não foi a mais linda, nem a mais perfeita Mi, mas foi a MELHOR. Ambos estávamos mergulhados em outros problemas, com outras pessoas em nossas vidas. Éramos jovens, humanos, e errávamos as vezes por vaidade ou cabeça dura (mas ate nos erros, tentávamos acertar). A gente tentou dar o nosso melhor para que nossa historia existisse. E por isso que foi BOM, você me fez mais humano. Despertou em mim sentimentos que eu nem conhecia. E eu amei o amor mais puro que já senti. É, por mais cliché que isso soe, entre tantas outras coisas, tu me ensinou a amar. Aprendi muito com você.

Eu sei que cometi erros, Mi. Erros, e também muitas coisas não foram ditas. Se pudesse voltar atrás, teria feito coisas diferentes. Mas de uma coisa eu tenho certeza, e tenho certeza que você também sabia, eu te amei com todas as forças, firme, e verdadeiramente.

Minha vida ficou vazia agora que você se foi. Nada tem graça agora que não posso compartilhar com você o meu dia a dia. Eu queria ter tido mais tempo, o tempo foi injusto conosco. Demorou tanto pra gente se abrir, e no melhor da historia, acabou. Mi, nada que eu escrever aqui conseguiria traduzir e falar o tanto que te amo e o tanto que te queria, então vou parando por aqui, porque escrever sobre você não é fácil.

Só posso dizer que te amo e te agradecer por ter me amado também. As suas palavras nunca sairão do meu coração.

E como o blog é de literatura, acabo com um poema seu, que tu me mandou em um dia de "poetera" como você mesmo dizia...o poema mais lindo que já recebi, porque é seu, e é de coração:

"Meu coração esta em formato de pêra
Eu achei que era só zueira
as vezes só falamos besteira
mas nosso amor é pior que sujeira
que sai só depois que Deus queira."


segunda-feira, 20 de julho de 2009

Razão e Sensibilidade (Sense and Sensibility) - Jane Austen

Existe uma gota de sangue em cada pagina desse livro. Gotas minhas, óbvio, que suei sangue para conseguir terminar de ler-lo.

Colocando o drama de lado, esse chato dinossauro victoriano exibe por meio de seus principais personagens, Elinor e Mariane, um tema interessante, digno de ser comentado: As diferenças entre as pessoas de razão e as ultra-sensíveis. Essas duas raças de seres humanos coabitam na terra desde a criação, muitas vezes em desarmonia.

Os guiados pela razão, os racionais, são seres que vivem na mais tranquila serenidade. Assim como Elinor, são sempre serios, calmos, e calculistas. As vezes são chamados de frios, mas isso não é verdade; não são frios, apenas sabem lidar com suas emoções e sofrimentos com força. Os encaram quietos e sozinhos, assim como Elinor e sabem partir para a luta quando é necessário, mas sempre de acordo com um plano de batalha pré-determinado.

Ser racional quer dizer uma coisa: estabilidade. A vida é calma dentro da fortaleza que os racionas constroem ao redor de si. Algumas pessoas dizem que a vida deles é privada grande emoções, mas isso não é necessariamente verdade. Claro que não vivem as suas emoções de maneira fulminante como os sensíveis, mas as vivem de maneira moderada, um minuto por vez, sem grande expectativas. Pode ser que as vezes perdem um ou outro acontecimento memorável, mas pensam que a estabilidade em qual vivem, sem grande oscilações, compensa tudo isso.

Ah! Agora os sensíveis. O Raça! Tomamos Mariane como exemplo. Jane Austen a caracteriza como uma romântica mimada. Para os ultra-sensíveis que lêem o livro, deve ser horrivel ter o seu comportamento "questionável" (eu queria mesmo era escrever estúpido, mas me sinto mal) jogado na cara de forma explicita, como se as folhas do livro fossem um espelho. Realmente dói ser exposto assim como fraco e muitas vezes sem a habilidade de agir.

Ser sensível é viver assim, com oscilações (ondas do mar seria uma metáfora sensível adequada). Definitivamente não gozam de qualquer forma de estabilidade. Vivem de forma explosiva, oito ou oitenta, sem qualquer tipo de meio termo ou acordo. Alias, intenso e explosivo também servem para definir o jeito que lidam com seus conflitos e sofrimentos. Sofrem abertamente e choram alto.

Todo sensivel é um sonhador. Vivem em um mundo imaginário, fruto de seus sonhos. São sonhadores natos e sonham com tudo.

Em seu favor, pelo menos podem dizer que vivem suas emoções de maneira diferente, com maior magnitude, e que realmente passaram pela vida vivendo, vivendo 100%. Como é comum dizer, onde uma pessoa racional vê uma maçã, o sensível enxerga o papel rosa-chá que a envolve, e com isso faz uma musica e uma poesia. O mundo literário, musical, e plástico, ou seja, o mundo artístico em geral deve muito a essas almas.

Os ultra-sensíveis juram de pés juntos que esse modo diferente de viver e os poucos momentos de extrema felicidade que passam devido a sua hiper sensibilidade compensam os meses de sofrimento que podem vir a seguir.

Todo ser humano nasce sensível, e depois por consequencia se torna racional, e depois oscila entre os dois (vide diagrama).As idas e voltas são turbulentas. Temos que aprender a lidar bem com elas. Algumas mudanças são para melhor e outras para o pior, depende mesmo é do tipo da pessoa. Mas a vida é assim, ela da voltas.

sábado, 18 de julho de 2009

Olhai os Lírios do Campo - Erico Verissimo

"Olhai os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? "
MATEUS 6:28-30

A obra toca em um assunto muito fragil e sensivel e por consequencia nos faz rever conceitos que outrora davamos como certo desde sempre. Portanto, é perigoso. O assunto é cliche, claro; mais a abordagem é feita de maneira diferente, explicita, afim de podermos analisar o psicologico dos personagens e estudar o efeito do eterno conflito: a relacao entre o trabalho e o social.

Escolher uma profissão e estilo de vida por gosto ou buscar dinheiro? Muito poucos optam pelo caminho virtuoso. Nós seres humanos nao somos muito altruistas com nós mesmos.

Quando crianças queremos ser apenas algumas coisas: médicos, cientistas, bombeiros, policiais, astronautas, e jogadores de futebol. Não existem crianças que quer ser juizes, advogados, engenheiros, administradores, e economistas. Claro que muitas coisas acontecem nesse periodo de transiçao entre a infância e a idade adulta, e muitos fatores sociais levam jovens a mudarem radicalmente de planos; mas na há como negar que perdemos um pouco de nossa inocência ao passarmos por essa fase e começamos a conhecer o que é ganância e amibição.

O periodo em que passei dentro de cursinhos pré-vestibulares permitiu que confirmasse isso. Um dos dialogos mais comuns entre alunos é sempre esse:

- "E ae, o que vai prestar? "
- "Nao sei, só sei que vai ser alguma coisa para ganhar muito dinheiro."

Não existe nada errado em querer ganhar dinheiro, vamos deixar isso claro antes de continuar. O mundo precisa sim de pessoas determinas, ativas, e com grandes projetos, e dinheiro torna a vida mais facil. Porém, o que nao pode acontecer, é o que mais acontece: a desumanização da profissão. Esquecemos que toda profissão tem um lado humano e focamos apena no aspecto monetário.

A leitura do livro vai te fazer balançar, e isso é bom. Ele mostra porque existem tantas pessoas FRUSTRADAS nesse mundo e nos ensina que a vida foi feita para ser prazerosa e vivida de maneira LEVE. Para voce que é vestibulando, pode ser uma leitura salvadora, ou um desastre que vai te embaralhar ainda mais.




A primeira carta de Olivia

Escrevi a pouco minha opinião sobre como Olhai os Lírios do Campo nos ajuda a entender melhor a relação entre o trabalho e o social. Mas sinto que infelizmente, não consegui fazer justiça ao livro e sua incrível qualidade. Então, transcrevo aqui a primeira carta de Olivia, personagem principal do livro, que explica de maneira melhor que eu, aquilo que quis dizer.

É longa, mas vale a pena.


Antes que me esqueça: na gaveta da cômoda há um maço de cartas que te escrevi de Nova Itália expressamente para “não te mandar”. Agora pode lê-las todas.

"Hoje tens tudo quanto sonhava: posição social, dinheiro, conforto, mas no fundo te sentes ainda bem como aquele Eugênio indeciso e infeliz, meio desarvorado e amargo que subia as escadas do edifício da faculdade, envergonhado de sua roupa surrada. Continuou em ti a sensação de inferioridade (perdoa que te fale assim), o vazio interior, a falta de objetivos maiores. Começas agora a pensar no passado com uma pontinha de saudade, com um pouquinho de remorso. Tens tido crises de consciência, não é mesmo? Pois ainda passarás horas mais amargas e eu chego até a amar o teu sofrimento, porque dele, estou certa, há de nascer o novo Eugênio.
Quando eu estava ainda em Nova Itália. Li muitas vezes o teu nome ligado ao do teu sogro em grandes negócios, sindicatos, monopólios e não sei mais quê. Estive pensando muito na fúria cega com que os homens se atiram à caça do dinheiro. É essa a causa principal dos dramas, das injustiças, da incompreensão da nossa época. Eles esquecem o que têm de mais humano e sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor: as relações de criatura para criatura. De que serve construir arranha-céus se não há mais almas humanas para morar neles?

Quero que abra os olhos, Eugênio, que acorde enquanto é tempo. Peço-te que pegues a minha Bíblia que está na estante de livros, perto do rádio, leias apenas o Sermão da Montanha. Não te será difícil achar, pois a página está marcada com uma tira de papel. Os homens deviam ler e meditar esse trecho, principalmente no ponto em que Jesus nos fala dos lírios do campo que não trabalham nem fiam, e no entanto nem Salomão em toda sua glória jamais se vestiu como um deles.

Está claro que não devemos tomar as parábolas de Cristo ao pé da letra e ficar deitados à espera de que tudo nos caia do céu. É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Precisamos, entretanto, dar um sentido humano às nossas construções. E, quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu.

Não penses que estou fazendo o elogio do puro espírito contemplativo e da renúncia, ou que ache que o povo devia viver narcotizado pela esperança da felicidade na “outra vida”. Há na terra um grande trabalho a realizar. É tarefa para seres fortes, para corações corajosos. Não podemos cruzar os braços enquanto os aproveitadores sem escrúpulos engendram os monopólios ambiciosos, as guerras e as intrigas cruéis. Temos de fazer-lhes frente. É indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do ódio e da violência e sim com as do amor e da persuasão. Considera a vida de Jesus. Ele foi antes de tudo um homem de ação e não um puro contemplativo.

Quando falo em conquista, quero dizer a conquista duma situação decente para todas as criaturas humanas, a conquista da paz digna, através do espírito de cooperação.

E quando falo em aceitar a vida não me refiro à aceitação resignada e passiva de todas as desigualdades, malvadezas, absurdos e misérias do mundo. Refiro-me, sim, à aceitação da luta necessária, do sofrimento que essa luta nos trará, das horas amargas a que ela forçosamente nos há de levar.

Precisamos, portanto, de criaturas de boa vontade. E de homens fortes como esse teu amigo Filipe Lobo, que seria um campeão de nossa causa se orientasse a sua ambição, o seu ímpeto construtor e a sua coragem num sentido social e não apenas egoisticamente pessoal.
"

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Porque muitos brasileiros não gostam de ler?

Na minha opinião , o nosso sistema de ensino faltoso e a falta de um amplo mercado editorial infanto-juvenil contribuem para que o brasileiro desde jovem desenvolva uma grande aversão por esse habito e consequentemente como adulto, não consiga sentir prazer na leitura.

O jovem precisa ter livros adequados para a sua faixa etária. Saímos da extrema infância, onde no maternal a professora nos lê Sitio do Pica Pau Amarelo e Turma do Cocoricó e chegamos na oitava série como a obrigação de ler e entender Machado de Assis e José de Alencar, assim, sem qualquer tipo de meio termo.

Ler é como andar, para conseguir desempenhar bem ta ação, é preciso primeiro engatinhar. Meu irmão recebeu do governo Olhai os Lírios do Campo na oitava série, e foi assim que conheci o livro. O fato é que 90% das crianças com essa idade não conseguem absorver e gostar de livros assim pois não tem uma bagagem literária pesada o bastante para conseguir aproveitar-lo. Então a leitura se torna chata, tediosa, e obrigatória.

Não adianta socar os clássicos como Machado, Alencar, Lispector em jovens de 15 anos. A leitura acaba se tornando um fardo e passa ser vista apenas como um meio de alimentar o intelectual de uma pessoa ao invés de ser vista também como algo gostoso, prazeroso, e um bom passatempo.

Precisamos de mais livros como Harry Potter, Crepúsculo, A Menina que Roubava Livro, e mais coleções como a Vagalume e Goosebumps para que a exposição da literatura aos jovens seja feita de forma mais progressiva e prazerosa, tornando assim possível que eles um dia se tornem adultos leitores e que venham apreciar livros de grande valor literário. Mais isso é impossível sem um mercado editorial infanto-juvenil sólido bem sucedido e preços acessíveis.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Son, I am Dissapoint

Olhai os Lírios do campo foi um dos primeiros grande sucessos do mercado editorial brasileiro. O romance obteve tão grande êxito de vendas em livrarias, que se esgotaram dele varias edições em poucos meses, algo pouco comum para a época, ainda mais tratando-se de um autor nacional e até então pouco conhecido.

Mais esse é um acontecimento isolado no Brasil. Infelizmente não temos muitos outros exemplos para citar. Livros aqui não são itens de primeira necessidade para a população. Esse lugar é ocupado pelas telenovelas. Todo mundo comenta sobre o ultimo capitulo de Caminho das Índias, mas nunca de livros, como em muitos outros países.

MAAASSSSS, quando isso acontece, quando um livro estoura, atinge altos níveis de popularidade, e a população fica doida e corre e lota todas as livrarias, uma semelhança pode ser notada. Se eu colocar aqui sucessos de vendas recentes no Brasil, os blockbusters literários, será que consegues notar-la? Vamos la:

  • Harry Potter
  • Código da Vinci
  • O Segredo
  • O Caçador de Pipas
  • A Menina que Roubava Livros
  • Crepúsculo
Sim, nenhum autor nacional. De fato, o ultimo livro nacional que consigo lembrar que teve grande aclamação publica foi O Doce Veneno do Escorpião de Bruna Surfistinha. E isso foi em 2005!

Muitas são as razões para isso. No Brasil existem mais editoras do que livrarias e apenas 10% das cidades brasileiras as possuem. Alem disso, no Brasil existem entre 1800 e 2000 livrarias, sendo que respeitando os índices sugeridos pela UNESCO, esse numero devia ser 1 para cada 10000 habitantes, ou seja, o Brasil deveria ter no mínimo 19,000 livrarias que somos aproximadamente 190 milhões de brasileiros. E com certeza, fatores internos burocráticos devem contribuir para essa triste realidade. Isso contribui para que a leitura nao seja encorajada no pais, e consequentemente, desestimula a produçao literária nacional.

Algo tem que ser feito !!!

terça-feira, 14 de julho de 2009

Hão de Chorar por Ela os Cinamomos..

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — "Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria.. . "
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — "Por que não vieram juntos?"

Alphonsus de Guimaraens


As vezes, raras vezes, me deparo com poemas como esse q assustam por sua pura e brilhante perfeição em todos os conceitos por qual julgamos poesias. Ritmo perfeito, métrica igualmente boa. Emoção que transborda da caneta do escritor. E significado, muito significado. Uma pérola da poesia brasileira.


quarta-feira, 24 de junho de 2009

Germinal - Emile Zola

Desta vez contrariei o ditado que diz para nunca julgar um livro por sua capa. Pude imaginar que estava comprando uma magna opus, obra prima, quando entrei num sebo aqui da cidade e o vi separado de todos os outros livros, em uma estante ao lado, como que em um pedestal iluminado por luzes de holofote, com sua capa preta e titulo expressivo. Repita: GERMINAL. G-E-R-M-I-N-A-L. Brilhante nome; nome sanguinário, para um livro igualmente violento.

Há tempos não lia um livro de tamanha qualidade. Germinal narra brilhantemente a historia da família Maheu, mineradores de uma mina de carvão, e de seus companheiros de aldeia e trabalho. Obrigados a trabalhar em condições desumanas, eles travam uma luta contra o sistema trabalhista da época.

Zola, de uma maneira ou outra, fez uma critica ao sistema capitalista que florescia na época e também expôs o leitor aos primeiros passos de vida da doutrina marxista, ideias comunistas, e a luta operaria; e por consequência a todos problemas presentes em uma revolução, ainda que de pequeno porte. A critica ao trabalho quase que escravo dos mineradores me faz lembrar a critica ao trabalho feita por Kafka em A Metamorfose.

Mas não quero focar aqui na historia. Ela é muito boa e não desejo estragar a emoção para quem vai ler. Ao invés disso, vou comentar o que mais me chamou atenção no livro: a forca narrativa de Zola. A sua habilidade e escolha de palavras faz do livro uma obra de arte. Mas não espere paisagens arcades e bonitas: o ponto marcante da obra é o seu tom grotesco, sujo, e macabro. Boa arte é isso, te da arrepios. Sempre ao relatar o livro para alguém, as memorias invadem o meu cérebro e sou envolvido por náuseas e vontade de vomitar. As cenas de miséria, sujeira, fome, sangue, sexo, e pornografia ficam na mente. Não são para os fracos de coração e estômago. Portanto, podemos traçar mais uma vez um paralelo dessa obra com a obra de Kafka.

Segue um trecho que deixa explicito a linguagem de Zola:

"Nenhum sinal de alvorada clareava o céu morto, apenas os altos-fornos e as fornalhas de coque ensanguentavam as trevas,sem alumiar seu mistério. E a Voreux, do fundo do seu buraco, com sua postura de bicho maligno parecendo cada vez mais retraído, respirava agora mais grossa e amplamente, como que sofrendo com sua dolorosa digestão de carne humana."

Para concluir, a questão universal sobre a eficácia e validez de revoluções e ideias revolucionários, direita e esquerda, sempre vai existir, assim como livros que abordam tais temas: como Germinal e Doutor Jivago. Independente da sua opinião, tu vai querer bater no seu chefe e começar um motim no seu escritório. Então, se decidires largar o emprego após ler o livro, tenha um plano B. Leia Germinal. Pode mudar sua visão em certos conceitos.

Os Trabalhadores do Mar - Victor Hugo

Esse livro é uma incógnita para mim. Ao tentar explicar á minha prima a minha experiência ao ler-lo, inventei uma teoria de buteco sobre livros chatos. Cheguei ao seguinte resultado: existem dois tipos de livros ruins. O primeiro tipo são livros como O Ateneu, que são completamente ruins e não é possível salvar deles sequer um parágrafo ou frase para colocar no MSN. O segundo tipo são livros como Os Trabalhadores do Mar, que são muito parados, chatos para ler, e bastante tedioso a não ser por alguns momentos de ápice em que a atenção do autor eh cativada; porém, deles são possíveis salvar muitas coisas.

Surpreendentemente, eu e meu amigo fizemos uma musica com passagens do livro. Não vou postar aqui pois prezo os ouvidos daqueles quem conheço.

Sim, é possivel aproveitar algumas passagens de Os Trabalhadores do Mar, um livro excessivamente romântico (chega a ser bem cómico). O que me desanima nele são as oscila coes na narração (Victor Hugo deve ter feito de propósito, só pra tirar uma com a nossa cara). O livro é emocionante de 75 a 75 paginas. Vai de aventuras rápidas e interessantes a narrações intermináveis e tediosas sobre madeiras de lei e sua eficácia nas embarcações em um segundo.




Eu nem ia comentar sobre esse livro, apenas o faço porque quero dedicar uma passagem dela para Michelle:

"Há uma porção celeste nessa menina. Alegras-te por vê-la tão esquiva, tão ligeira, tão ligeira, tão fugitiva; agradeces-lhe a bondade de não ser invisível, ela, que poderia, creio eu, ser impalpável. Neste mundo o lindo é o necessário. Há mui poucas funções tão importantes como esta de ser encantadora. Que desespero na floresta se não houvesse o colibri! A beleza basta ser bela para fazer bem. Há criatura que tem consigo a magia de fascinar tudo quando a rodeia; ás vezes nem ela mesmo o sabe, e é quando o prestígio é mais poderoso; a sua presença ilumina, o seu contato aquece; se ela passa, ficas contente; se para, és feliz; contemplá-la é viver; é a aurora com figura humana; não faz nada, nada que não seja estar presente, e é quando basta; de todos os poros sai-lhe um paraíso; é um êxtase que ela distribui aos outros, sem mais trabalho de que o de respirar ao pé deles. Tem um sorriso que - ninguém sabe a razão - diminui o peso da cadeia enorme arrastada em comum por todos os viventes, que queres que diga?"


"Quando há duas criaturas, a vida é possivel. Havendo uma só, parece que nem se pode arrastá-la. É a primeira forma de desespero. Mais tarde compreende-se que o dever é uma série de aceites. Contempla-se a morte, contempla-se a vida, consente-se na última. Mas é um consentimento q sangra."

Quanta saudade. Assim que tiver mais coragem, escrevo algo.

O Ateneu - Raul Pompéia

Meuuuuuu...coloca um coturno militar e me da um chute no saco. Sem comentários. Horripilante. Agora entendo aquela piada (a lá A Praça é Nossa) corriqueira em livrarias de escola: Já leu O Ateneu? Não? Nem eu!

Terminar esse livro foi uma luta árdua. Tive que colocar a faca no dente, prender a respiração, e ter sangue nos olhos. Prefiro correr maratonas.

Confesso que essa foi a primeira obra impressionista que li. Não fiquei admirado. Impressionismo ou exibicionismo? Impossível discernir. Eu sei que muitos críticos dizem que livros dessa vanguarda não são ruins e que somente nós, pessoas menos favorecidas intelectualmente, os odeiam. Mas que se dane.

Mas eu ainda tenho esperanças que outros autores dessa corrente, como Conrad, Proust, e Henry James, possam fazer eu mudar de ideia. Mas vou confessando que não estou animado.


.

Anna Karenina & Luzia Homem

Muito prazeroso essa mudança de cenário ao ler livros com protagonistas femininas (mesmo achando que o papel de Anna é superestimado). Existem milhões de Ivans Karamazovi, Juliens Sorel, Quincas Borbas, Doms Casmurro, e Dons Quixote na literatura mais apenas algumas Annas Karenina, Luzias, e Madames Bovary. Vale a pena então notar o caráter forte dessas duas grandes representantes do sexo feminino na literatura mundial.

Luzia e Anna não dividem apenas historias com acontecimentos semelhantes, mais também uma força expressiva de caráter, apesar de serem bem diferentes. Prefiro Luzia pois a acho mais humana e mais ligada a realidade, mesmo que as duas tem a sua historia ao redor do mesmo período de tempo durante o começo do século XIX.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Luzia Homem - Domingos Olímpio

Antes de começar, deixo aqui meu protesto contra todos os livros da vanguarda naturalista do mundo. Ao ler algum desses ótimos exemplares, saberás porque.

Mesmo sobre meu protesto, Luzia Homem é um livro brilhantemente escrito, assim como muitos romances regionalistas da época. Domingos Olímpio expõe com muito êxito todo o cenário nordestino da época assim como as tradições locais. Em meados de 2009, livros assim são uma das poucas fontes onde podemos buscar conhecimento sobre nossos antessapados nordestinos de épocas tão distantes.

Luzia é uma mulher peculiar, no sentido que é diferente de qualquer outra personagem feminina da época. É forte, determinada, tenaz, e endurecida devido ao meio que vive. É muito interessante ver uma pessoa com tais características passar por tantas mudanças ao decorrer da historia e encontrar em si mesmo o seu lado feminino e humano.

Minha única reclamação não é com o livro, mas sim com uma constatação que fiz ao ler-lo: apesar de muitos dizer que a língua portuguesa é a mais linda do mundo e a ultima flor do lácio, caramba, como pode ser horripilantemente feia as vezes. Ler palavras como crapiúna, Quinotinha, botija, cangalha, párias, adejantes, e pudica fazem o leitor tremer. Sei que os puristas dirão que estou errado e que afirmar algo assim é um ato criminoso porque tal afirmação deve levar em conta muitos parametros e etc..Mas tenho que tirar isso do meu peito! Mas fique tranquilo leitor, o livro é de alta qualidade, e assim fica fácil relevar essas palavras tenebrosas.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Anna Karenina - Leão Tolstoi

Para começar, vamos ser sinceros e concordar que o livro não deveria se chamar Anna Karenina e sim Levin Dmitrievitch.

A historia centrada ao redor de Levin é muito mais interessante do que a da "heroína" Anna. Levin confronta e vence, apesar de todos os seus sofrimentos, o maior adversário que o ser humano pode ter: si mesmo. Levin consegue vencer através de uma luta árdua, que envolve muito perdão próprio, seus conflitos religiosos, profissionais, e amorosos (o fora que ele leva logo no começo do livro é monstruoso, mas não vamos falar agora de cenas tão humilhantes).

Ao contrario da historia de Levin, a historia de Anna é chata demais. Anna é chata demais. Que vontade de dar um pedala nela. Chata, ciumenta, birrenta, mimada, e vingativa. Essas são as muitas qualidades de Anna Karenina. Alias, não só dela, como de todas as pessoas apaixonadas; e é por isso que a historia é chata. É uma historia velha e que acontece com todo mundo pois todos nos temos um pouco de Anna dentro de nós. Portanto, quando queremos ser apresentados a uma historia de amor desastrosa, não precisamos ler Anna Karenina; precisamos apenas lembrar das nossas. Já são desgraçosas o bastante.

Em suma, um livro bom, apesar do nome equivocado. Muito bem escrito, com capítulos curtos, o que torna a leitura agradável. Vale a pena ler-lo pela história de vida de Levin, que pode servir de exemplo de como perdoar a si mesmo, pode muitas vezes ser o caminho da felicidade.

Anna Karenina - Leão Tolstoi (Parte 2)

Abandono infantil é inaceitável, independente de amores ou paixões safadas fora do casamento. Uma criança é muito maior que tudo isso. Abandonar uma criança ainda em sua idade infantil por causa de algum homem ou mulher é grotesco. Quer se separar, pois bem, não problema nisso; mas isso não lhe da o direito de negar apoio ao seus descendentes. Muitos pais separados dividem a guarda de seus filhos na mais perfeita harmonia.

A partir do momento que você tem um filho, é necessário respeitar-lo, amá-lo, e aceitar o fato de que quando em condição de guardião de uma criança, algumas de suas liberdades cessam de existir. Por esse e outros motivos, não gosto da Anna. Ela tem muito que aprender com RRRubia, futura mãe dos meus 12 filhos.

Crianças foram feitas para serem amadas!!


sábado, 20 de junho de 2009

O Duplo - Dostoevsky

Pura loucura e psicose desde o personagem principal ao jeito que Dostoevsky construiu o texto.

Com todo respeito, sei que Dostoevsky devia ser uma homem muitíssimo inteligente mas para escrever obras como essa e tantas outras de sua autoria, ele devia pelo menos ter um dedao do peh, se não no sanatório, pelo menos em um consultório psiquiátrico. Os mais aventureiros dizem que ele frequentava a secao de auto ajuda nas bibliotecas moscovitas.

Feche os olhos e lembre-se dos seus dias de colégio, pode ser que vc ainda esteja neles. Agora tente recordar aquele ser excluído da sua classe, o quietao, esquisitao, estranhao, aquele q nunca era convidado para as festas e churras, que ate tentava fazer amizades mas nao conseguia por ser taxado como o chato. A figura que tu tem em mente agora provavelmente se parece muito com Golyadkin, um funcionário publico e personagem principal do livro.

Ao se encontrar com uma copia sua, mesmo q inexplicavelmente, Golyadkin, começa uma jornada pelos rios da extrema loucura, uma jornada marcada pela dualidade, hipocondria social, ambicao, complexo de inferioridade, sentimento de persiguicao, e relacoes conturbadas em seu local de trabalho.

Toda essa loucura se traduz tb na linguagem do livro. Os diálogos travados entre Golyadkin e seus interlocutores são marcados por uma esquizofrenia léxica, frases extremamente repetitivas, que deixa o leitor confuso e com extrema raiva de Golyadkin e Dostoevsky, por nos fazer sofrer tanto ao ler a palavra "senhor" 3484 vezes na mesma frase.

Influencia clara e direta para Kafka, na composição da sua obra prima "A metamorfose" ( alias, dois livros bem semelhantes), O Duplo merece uma chance, especialmente para quem esta afim de ler um livro relativamente simples, mas que permite um estudo psicológico interessante dos seus personagens, assim como em outras obras de Dostoevsky.

Gente Pobre - Dostoevsky

Gente pobre (alias, um nome bem legal para um livro, mas ainda prefiro Pobre Gente..bom..enfim..) eh uma obra atipica quando comparada com outros trabalhos de Dostoevsky. A historia nos mergulha no romance de Makar e Varvara, um casal apaixonado que devido a condicao precaria em q se encontram nao podem sonhar com o matrimonio.

Sua escrita em forma de cartas produz um efeito interessante no leitor: a aproximacao ao extremo com os personagens da obra e um olhar privilegiado dentro dos seus psicologicos e sentimentos mais profundos. Em adicao, os relatos de pobreza e miseria das classes russas menos favorecidas eh algo raramente visto em obras da era dourada da literatura russa, cujos personagens pertencem na maioria das vezes a aristocracia rural ou governamental da sociedade. Ou seja, uma mudanca agravadel para o leitor que nao esta acostumado com historias cujos personagens pertencem a periferia.

Dostoevsky elabora dai um estudo, mesmo q maquiado, da massa pobre de Sao Petesburgo, todas as dificuldades por ela encontrada, e o efeito disso sobre o psicologico da populacao. Algo interessante que se pode destacar da obra eh a maneira como a pobreza afeta a auto-estima dos personagens que a partir dai comecam a mostrar a sua inabilidade de alterar seus destinos em uma sociedade estamental. Alem disso, podemos citar a leve critica que Dostoevsky faz ao sistema trabalhista russo do seculo XIX, q nao apoiava seus trabalhadores nem financeiramente, nem psicologicamente.

Em suma, Gente Pobre eh um livro que proporciona uma experiencia que apenas um romance epistolar pode trazer. Agora, vou me retirar, e ir escrever uma carta, pois como ja diz o ditado: Me fale uma coisa, e eu acreditarei, me escreva a mesma coisa, e acreditarei ainda mais.

Doutor Jivago - Boris Pasternak (Parte 2)

"As instituicoes civis devem brotar de baixo, em bases democraticas, como mudas de arvores plantadas na terra, q criam raizes. Elas nao podem ser implantadas de cima, como estacas."

Muito interessante esse trecho do livro onde Boris Pasternak critica ousadamente revolucoes q ao conseguir atingir suas metas, usam de forca bruta e totalitarismo para impor suas regras.

O tempo prova que governos q usam disso tendem a nao ter exito ou gozar de grande aprovacao publica. Exemplos sao o fracasso da ditadura jacobina q fora esmagada pelos termidorianos (exemplo dado no livro) e muitos outros governos, tipicamente de paises subdesenvolvidos e miseraveis (leiam ditaduras e governos americanos e africanos). Sera q podemos citar a queda da URSS tb?...nao sei..vcs me dizem...

No livro, Pasternak cita cenas de assassinatos, execucoes em massa, fome, e outras atrocidades q mostram que a Revolucao Russa foi sim, muito sangrenta e que sua lideranca era composta por muita gente q ao subir ao poder, tomou ares oligarquicos e tiranos. Posso estar errado, nem de longe sou um perito em historia, mas lendo coisas assim, fica facil acreditar que A Revolucao dos Bichos, livro de George Orwell, descreveu corretamente o q foi esse acontecimento historico.

O ser humano e sua mania de deixar a oligarquia reinar...

Doutor Jivago - Boris Pasternak

Vou ser sincero. O livro eh muito ruim. Tao ruim, que chega a dar raiva. Apesar de tudo isso, ao acabar-lo vc percebe que apesar de tao ruim, voce gostou do livro e passa a reconhecer a sua importancia no contexto historico russo-socialista. Isso da mais raiva ainda. Como gostar de algo tao entediante?

Sim, Boris Pasternak era muito macho e muito louco. Essa eh a unica explicacao plausivel para respondermos que tipo de pessoa escreve um livro desse em um regime totalitario, onde a censura era imposta livremente.

Considero que o livro eh uma descricao "nao-fantaciosa e nao-sensacionalista" do cotidiano russo durante as revolucoes de 1905, 1917, a primeira, e segunda guerras mundias. Pasternak mostra todos os horrores que a guerras trouxe a populacao russa, sem medir palavras: As mortes, assassinatos, fome, doencas, intolerancia, e totalitarismo. Ou seja, um verdadeiro balde de agua fria para todo o programa de propaganda politica sovietica vigente na epoca. Nao eh surpresa que o livro soh foi publicado em solo russo apenas 1m 1988 e que Pasternak fora proibido de receber o premio nobel por ele ganho em 1958. (Tenho que pausar e me perguntar como q ele conseguiu ganhar esse nobel?.....eh chato admitir q um livro desse merece...mas talves mereca mesmo).

Os pontos marcantes da obra, a desilusao com a revolucao e a descaracterizacao do ser humano, sao sozinhos razoes para ler o livro, por mais entediante q ele seja ( prometo q vou tentar pegar mais leve daqui para frente). Nao se pode dizer q se trata de um livro de direita e totalmente anti-revolucionario, mas pode se tracar uma distincao clara entre a obra e o resto da producao literaria do periodo, como por exemplo as obras inflamadas de escritores e poetas da epoca.

Nao podemos comparar o livro com Os Possessos de Dostoevsky, por exemplo. Mas talves a analogia pode ser feita com o autor de Os Possessos. Como Dostoevsky, Jigavo foi de simpatizante a revolucao, a uma pessoa calma, q advogava o bem estar da populacao acima de tudo.

Sobre o aspecto artistico, nao ha muito o q pode ser dito. Mesmo pq, a nossa experiencia ao ler o livro em portugues, e nao em russo, torna a leitura pobre quando levamos em consideracao que Boris Pasternak era conhecido como um poeta, um mestre da lingua russa q recorreu a toda sua habilidade para fazer do livro sua obra prima, um "overture", com perfeicao quase q chopiniana. O que podemos dizer eh que suas dissertacoes sobre arte sao meio confusas e escuras e que suas descricoes desnecessariamente longas da paisagem russa sao muito cansativas e fora de lugar. Sao semelhantes, eh verdade, as de Aluizio de Azevedo em sua obra O Mulato. Aluizio, porem, foi muito mais feliz na sua abordagem tecnica.

Concluindo, espere uma boa briga com o livro e seus capitulos gigantescos. Uma briga prazerosa, especialmente apos o termino da sua leitura. Se voce eh marinheiro de primeira viagem em obras russas "modernas" pos-era dourada, nao espere um Dostoevsky e nem um Turguenev, pois a leitura eh muito diferente. Mesmo assim, impossivel nao reconhecer Doutor Jivago de Boris Pasternak como leitura obrigatoria dos amantes e estudiosos da literatura russa em si e historia mundial em geral, assim como os amantes de estudos sobre filosofia politica e governamental. Uma boa sorte aos embarcantes do barco Jivago.

Dispersao

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto.
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que me abismaste nas ânsias.

A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que protejo:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projeto.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que sonhei!... )

MARIO DE SA CARNEIRO

Deducao

"Nao acabarao com o amor,
nem as rusgas
nem a distancia.
Esta provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e falo:
Amo
Firme
Fiel
e verdadeiramente"
-Maiakovsky

Como ja Dizia o Poeta

Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu

Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão

Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir

Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não.

Vinicius de Morais

Poema Em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

-Fernando Pessoa


O Dilema do Banho

Infelizmente vivemos em um pais onde a desigualdade social nao permite a camada nao-elitista a ter um sistema de calefacao interna em suas casas, o que resulta em um ambiente caseiro frio, ou seja, um ambiente hostil para o banho. Portanto, o processo de banhar-se deve ser lento e bem planejado e vc deve ser frio e calculista.

Primeiro, vc deve se perguntar: PQ ESTOU FAZENDO ISSO?
  • O seu banho eh algo vital para a sua saude?
  • Eh uma necessidade fisiologica?
  • Eh apenas mais uma acao encorajada pelos governos capitalistas neo-liberais emergentes que nao investem na industria perfumeira do pais?
  • A sua mae, namorada, e animais de estimacao ja estao reclamando?
  • Vc esta preparado psicologicamente e fisicamente?
Se depois de ponderar esas perguntas acima, voce optar pelo banho, parabenize-se, vc ja eh um vencedor! Porem, antes de comecar algumas coisas devem ser decididas:
  • Vc ja tem uma agilidade consideravel no ato de tirar a roupa e no ato de se vestir?
  • Quanto tempo vc pretende ficar no chuveiro ( minimo de 15 minutos ja que ja tirou a roupa)
  • Qual eh o melhor lugar para colocar as roupas q vc vai vestir ( para minimizar o tempo que se leva desde que se desliga o chuveiro ate se secar e se vestir )
  • Tirar a camisa ou a calca primeiro?
Depois de tudo isso..vc esta pronto...bom banhoo !!




O Retrato do Artista Quando Jovem - James Joyce

"I also am sure that there is no such thing as free thinking inasmuch all thinking must be bound by its own laws."
"E tb tenho certeza q nao existe tal coisa como o livre pensar pq todo pensamento tem q ser preso as suas proprias regras"
O Retrato do Artista Quando Jovem - James Joyce

O homem nao eh livre para pensar. Cada individuo possui uma cartilha de regras a serem seguidas por si mesmos que limita o campo de pensamento de cada um. Essas regras sao passadas por membros da familia, experiencias pessoais, e pela sociedade.

Inegavelmente essas regras podem ser consideradas dogmas, pois sao verdades absolutas para o seu portador. Por consequencia, elas se tornam a policia do pensamento, impedindo o ser humano de chegar a conclusoes complexas sobre muitos assuntos. (Pauso para falar q nesse ponto Admiravel Mundo Novo bate 1984..mas isso eh assunto para outra postagem).

Precipuamente, eh valido citar um exemplo corriqueiro na vida dos brasileiros: o amor ao futebol. Um Corinthiano nunca vai cogitar a possibilidade de admitir, de pensar, de raciocinar sobre a superioridade de algum outro time sob o seu. Por analogia, um sao paulino nunca admitiria que alguma decisao erronea pela arbitragem a favor do seu time seja perjurativa ao futebol.

Exemplos como os de acima mostram q existem barreiras impostas ao nosso pensamento. Mas podemos citar dezenas mais. No plano emocional: quem nunca se apaixonou por uma baranga e jurou para todos os amigos que ela era o ser humano mais bonito da face da terra?; No plano profissional: varios empreendedores que perderam fortunas ao manterem-se vinculados a empreendimentos de fracasso certo; No plano social: de que outra maneira explicar o racismo racial a nao ser por a inabilidade humana de pensar de forma coerente?

Decerto, o ser humano tem algemas no cerebro. Se fosse livre para pensar, tb seria livre para ser condenado por seus pensamentos, e isso eh uma loucura. Einstem nao tem culpa pelo o q aconteceu em Hiroshima, Santos Dumont nao tem culpa pelos avioes de guerra, e Ivan Karamazov nao tem culpa na morte do seu pai.

Contudo, eh necessario falar que as algemas que limitam o pensamentos, sao afinal de tudo, algemas. Isso quer dizer que elas podem ser quebradas. Isso eh raro, porem, pq ao tentar se livrar das suas regras, o ser humano encontra um rio de emocoes turbilhantes e vivas para enfrentar. Tentar andar contra esse rio, ou seja, os dogmas religiosos, morais, e socias eh pisar em terreno perigosissimo. Quando alguem opta por isso, esta andando em verdadeiras minas terrestres vivas, e tem q estar preparado para balancar, e balancar muito.

Em suma, cuidado. Nao ser livre para pensar pode nao ser o fim do mundo.

O importante eh q somos livres para agir.