
Desta vez contrariei o ditado que diz para nunca julgar um livro por sua capa. Pude imaginar que estava comprando uma magna opus, obra prima, quando entrei num sebo aqui da cidade e o vi separado de todos os outros livros, em uma estante ao lado, como que em um pedestal iluminado por luzes de holofote, com sua capa preta e titulo expressivo. Repita: GERMINAL. G-E-R-M-I-N-A-L. Brilhante nome; nome
sanguinário, para um livro igualmente violento.
Há tempos
não lia um livro de tamanha qualidade. Germinal narra brilhantemente a historia da
família Maheu, mineradores de uma mina de
carvão, e de seus companheiros de aldeia e trabalho. Obrigados a trabalhar em condições desumanas, eles travam uma luta contra o sistema trabalhista da
época.
Zola, de uma maneira ou outra, fez uma critica ao sistema capitalista que florescia na
época e
também expôs o leitor aos primeiros passos de vida da doutrina marxista, ideias comunistas, e a luta operaria; e por
consequência a todos problemas presentes em uma
revolução, ainda que de pequeno porte. A critica ao trabalho quase que escravo dos mineradores me faz lembrar a critica ao trabalho feita por Kafka em A Metamorfose.
Mas
não quero focar aqui na historia. Ela é muito boa e
não desejo estragar a
emoção para quem vai ler. Ao
invés disso, vou comentar o que mais me chamou
atenção no livro: a forca na

rrativa de Zola. A sua habilidade e escolha de palavras faz do livro uma obra de arte. Mas
não espere paisagens arcades e bonitas: o ponto marcante da obra é o seu tom grotesco, sujo, e macabro. Boa arte é isso, te da arrepios. Sempre ao relatar o livro para
alguém, as memorias invadem o meu
cérebro e sou envolvido por
náuseas e vontade de vomitar. As cenas de
miséria, sujeira, fome, sangue, sexo, e pornografia ficam na mente.
Não são para os fracos de
coração e
estômago. Portanto, podemos
traçar mais uma vez um paralelo dessa obra com a obra de Kafka.
Segue um trecho que deixa explicito a linguagem de Zola:
"Nenhum sinal de alvorada clareava o céu morto, apenas os altos-fornos e as fornalhas de coque ensanguentavam as trevas,sem alumiar seu mistério. E a Voreux, do fundo do seu buraco, com sua postura de bicho maligno parecendo cada vez mais retraído, respirava agora mais grossa e amplamente, como que sofrendo com sua dolorosa digestão de carne humana."
Para concluir, a
questão universal sobre a
eficácia e validez de revoluções e ideias
revolucionários, direita e esquerda, sempre vai existir, assim como livros que abordam tais temas: como Germinal e Doutor Jivago. Independente da sua
opinião, tu vai querer bater no seu chefe e
começar um motim no seu
escritório.
Então, se decidires largar o emprego
após ler o livro, tenha um plano B. Leia Germinal. Pode mudar sua
visão em certos conceitos.