quarta-feira, 24 de junho de 2009

Germinal - Emile Zola

Desta vez contrariei o ditado que diz para nunca julgar um livro por sua capa. Pude imaginar que estava comprando uma magna opus, obra prima, quando entrei num sebo aqui da cidade e o vi separado de todos os outros livros, em uma estante ao lado, como que em um pedestal iluminado por luzes de holofote, com sua capa preta e titulo expressivo. Repita: GERMINAL. G-E-R-M-I-N-A-L. Brilhante nome; nome sanguinário, para um livro igualmente violento.

Há tempos não lia um livro de tamanha qualidade. Germinal narra brilhantemente a historia da família Maheu, mineradores de uma mina de carvão, e de seus companheiros de aldeia e trabalho. Obrigados a trabalhar em condições desumanas, eles travam uma luta contra o sistema trabalhista da época.

Zola, de uma maneira ou outra, fez uma critica ao sistema capitalista que florescia na época e também expôs o leitor aos primeiros passos de vida da doutrina marxista, ideias comunistas, e a luta operaria; e por consequência a todos problemas presentes em uma revolução, ainda que de pequeno porte. A critica ao trabalho quase que escravo dos mineradores me faz lembrar a critica ao trabalho feita por Kafka em A Metamorfose.

Mas não quero focar aqui na historia. Ela é muito boa e não desejo estragar a emoção para quem vai ler. Ao invés disso, vou comentar o que mais me chamou atenção no livro: a forca narrativa de Zola. A sua habilidade e escolha de palavras faz do livro uma obra de arte. Mas não espere paisagens arcades e bonitas: o ponto marcante da obra é o seu tom grotesco, sujo, e macabro. Boa arte é isso, te da arrepios. Sempre ao relatar o livro para alguém, as memorias invadem o meu cérebro e sou envolvido por náuseas e vontade de vomitar. As cenas de miséria, sujeira, fome, sangue, sexo, e pornografia ficam na mente. Não são para os fracos de coração e estômago. Portanto, podemos traçar mais uma vez um paralelo dessa obra com a obra de Kafka.

Segue um trecho que deixa explicito a linguagem de Zola:

"Nenhum sinal de alvorada clareava o céu morto, apenas os altos-fornos e as fornalhas de coque ensanguentavam as trevas,sem alumiar seu mistério. E a Voreux, do fundo do seu buraco, com sua postura de bicho maligno parecendo cada vez mais retraído, respirava agora mais grossa e amplamente, como que sofrendo com sua dolorosa digestão de carne humana."

Para concluir, a questão universal sobre a eficácia e validez de revoluções e ideias revolucionários, direita e esquerda, sempre vai existir, assim como livros que abordam tais temas: como Germinal e Doutor Jivago. Independente da sua opinião, tu vai querer bater no seu chefe e começar um motim no seu escritório. Então, se decidires largar o emprego após ler o livro, tenha um plano B. Leia Germinal. Pode mudar sua visão em certos conceitos.